quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

CIDADANIA JOGADA NA RUA (OU À SORTE)

A turma de 4º semestre de Jornalismo da Uninove , campus Memorial, apresentou na última semana seminários de Fotojornalismo. Um dos temas abordados por um dos grupos retratava o cotidiano de moradores de rua.

Particularmente, achei este projeto uma "porrada na boca do estômago" de quem preocupa-se somente com o ingresso da balada do próximo final de semana, com o estilo da atriz X da novela Y ou, até mesmo, com aqueles que preocupam-se sobre a possibilidade de perder alguns milhões por causa da crise econômica. A parada ficou, ao meu ver (desculpe-me por fazer julgamento de valor, mas não posso evitar), extremamente humanizada, e chama atenção, também, à mediocridade do ser humano no que diz respeito à preocupação com o próximo, independentemente de quem quer que seja ou com sua ocupação.
Decidi colocar por aqui, além das fotos feita pela galera, texto produzido por minha colega de classe Christine Lopes... as palavras escolhidas sintetizam o sentimento de indignação, revolta e vergonha aos quais me submeti... espero que vocês reflitam sobre isso... Chris, agora a palavra é sua!

Vinte de novembro de 2008, comemoração do Dia da Consciência Negra. O cortejo seguiu para a Igreja da Sé. Lá dentro, Rita, moradora de rua, estava dançando inocente e feliz, quando foi abordada pelo segurança, que incomodado com tanto entusiasmo, pediu que ela se retirasse do Templo Sagrado. Templo esse, que diz ter as portas abertas a todos os filhos de Deus. E o morador de rua, não é filho de Deus? Além de lhe tirarem o direito a educação, moradia e saúde, ainda lhe tiram a paternidade?



Quem são essas pessoas? Para onde elas vão e o que o futuro representa para elas? Essas são perguntas que a maioria das pessoas, não está preocupada em responder. Para muitos, o morador de rua é um pobre coitado, sem rosto, sem identidade, sem importância.
Vendo de perto, conhecemos pessoas normais. Infelizes sim, mas gente como a gente. Pessoas que tem sonhos, que são inteligentes e que são solidários uns com os outros. Eles não tinham nem um pão velho para comer, mas a Xuxa, cadelinha de estimação e companheira de sofrimento, tinha iogurte e ração no seu pratinho. Isso exprime o sentido da palavra solidariedade.




O morador de rua Lafonte, é um exemplo disso. Carioca e ex-estudante da faculdade de psicologia, no Rio de Janeiro, sonha em voltar a estudar, para fundar uma instituição de caridade e dar um lar para todas as pessoas que estão nas ruas. Homossexual, que excluído pela família e pela sociedade, passou a viver esse drama de não ter para onde ir. Extrovertido, se diz uma pessoa feliz e faz questão de distribuir o seu Orkut e o seu endereço eletrônico, aliás é o único endereço que ele tem.



Billy, nascido na Somália em 1971, foi resgatado da fome no país africano, adotado por um casal de brasileiros. Ficou órfão novamente, aos dez anos de idade. Os filhos do casal, o jogou na rua e ele passou a conhecer o que é miséria e fome, só que agora em solo brasileiro. Aos 37 anos, Billy não consegue ter uma família, diz estar muito traumatizado para constituir uma e por isso, prefere ficar na rua. Poliglota, fala quatro idiomas, inteligente e sensível. Esse é o morador de rua, que teve a preocupação de perguntar qual o sentimento da equipe, em estar executando esse trabalho. Não pediu dinheiro, moradia, nem comida. Só pediu respeito e amizade, ou seja, que alguém se importe com eles, como seres humanos que são.




O morador de rua não está preocupado com a crise financeira, com a alta do dólar ou se Barack Obama foi eleito presidente da maior nação do mundo. Eles estão preocupados se vão conseguir dormir de noite e não vão ser agredidos pela polícia ou pelos Skin Heads, que os atacam covardemente, até mesmo quando estão indefesos.

A sensação de impotência e de indignação, de nada resolve. O morador de rua precisa de atitudes concretas e não do cadastro feito pela prefeitura da cidade de São Paulo, que lhe dá direito a um banho por semana. É necessário mais do que iniciativas de grupos de assistência social ou de pessoas isoladas. Eles precisam ser inseridos na sociedade, como cidadãos que são. Cidadão, que no dicionário quer dizer “ habitante de uma cidade, indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um estado”. Ou seja, direito a educação, a saúde, a moradia e alimentação. Coisas que só ouvimos falar em época de eleição, mas que logo são esquecidas.



3 comentários:

Redação disse...

Gostei dessa fotoreportagem. Apesar do tema totalmente clichê, algumas coisas me chocaram, como a senhora negra, ser expulsa de uma cerimônia no dia da consciência negra por um segurança negro.

É o fim do mundo, mesmo.

Andreia Cardoso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Andreia Cardoso disse...

Que bom que o nosso trabalho fez algum sentido pra você. Já valeu a pena por isso. O vídeo está disponível no meu blog.