domingo, 23 de agosto de 2009

NUNCA MAIS? (PARTE I)


Era um dia nublado, tão insosso quanto um prato preparado para um hipertenso (em tratamento). A garota do tempo, numa dessas ironias da vida, havia informado que aquele seria um dia ensolarado; e o mesmo fora informado na TV do metrô e no jornal. Talvez seja mais fácil acreditar em duendes e na integridade moral de Sarneys e de caudilhos em geral. Ah!, e diga-se de passagem, aquele era um dia interessante para viajar de avião... e eu teria de fazê-lo, até Curitiba.


Na verdade, eu iria a um desses congressos regados a muitas palestras sonolentas e rodadas de uísque até o amanhecer (e isso tenderia a repetir-se por uma semana). O tema era ligado à Literatura (antes que eu esqueça de dizer, sou professor de Letras numa dessas universidades particulares por aí; e, nas horas vagas, tento desfazer-me das minhas frustrações escrevendo... nem preciso dizer o quão ridícula e insignificante é a minha obra(?)). Enfim, por algum motivo que nem um tal Sigmund Freud explicaria, fui convidado a participar dela.


No fim das contas, aceitei sem titubear, para tentar fugir um pouco dos problemas - e de mim mesmo, reconheço. Eu não passava por uma fase "das melhores", por assim dizer. O meu casamento de cinco anos havia acabado (ou melhor, fui eu quem optara pelo divórcio... Maria Luiza, minha ex-mulher, merecia alguém melhor, menos chato e menos propenso a ser um "loser"); o meu emprego na universidade estava por um fio (tudo por causa de uma veemente discussão com o reitor, um "carrasco nazi-fascista"); e, além disso, a minha relação com o meu pai não andava muito bem (por minha culpa... seguramente pelo meu jeito "fechado", por preferir chorar escondido do que a pedir ajuda... e, desde que havia dito ao "velho" que estava cansado de ser um problema (!) na vida dele, não nos falamos mais... e isso faz uns três meses).


A caminho do aeroporto, no táxi, sem motivo aparente, tive uma sensação estranha... era como se aquela fosse a última vez em que eu faria aquilo. Será que nunca mais veria os prédios da Avenida Paulista? Eu não teria mais oportunidade de ver o sorriso da Maria Luiza, o mais lindo que eu vi até hoje? (é difícil admitir, mas eu ainda a amava... e, por amá-la, decidi afastar-me dela... e me sentia igual ao personagem de Matt Damon em "Gênio indomável". A exemplo do que você está pensando agora, sei que sou um cara complicado; enigmático, como uma grande amiga minha diria). Nunca mais iria ao Pacaembu, para assistir ao jogo do Corinthians? Eu não iria mais ir a uma livraria, para ler por horas e horas; ou ir ao bar com os amigos? Por alguns segundos, eu me senti aterrorizado por causa daquela sensação; tanto que o taxista me perguntou se estava tudo bem. "Tudo bem, 'velho'... só uma certa nostalgia por antecipação". Ele havia dito que muitos dos passageiros dele sentiam algo semelhante. "Não foi nada demais"; e me calei instantaneamente. Nunca fui muito bom em conduzir diálogos...


Fim da corrida até o aeroporto (sem trânsito intenso, ainda bem); e ela ficou por volta de R$30,00... se não fosse pelas malas, eu teria pego ônibus e metrô sem problema algum. O voo estava previsto para as 16h30 e, por um milagre, estava aproximadamente 1 hora e quinze minutos adiantado (eu nasci com um ligeiro (?) problema crônico no meu relógio biológico; logo, nunca fui muito bom no quesito "pontualidade"). Aproveitei para despachar as malas para que fossem direcionadas ao compartimento do avião; e fui à Duty Free, para comprar um livro para passar o tempo da viagem (eu havia esquecido o "Admirável mundo novo" em casa; e pretendia lê-lo pela terceira vez... queria certificar-me que as comparações que faziam comigo e com Bernard Marx, personagem desta obra de Huxley, eram fundadas). Acabei adquirindo um livro sobre Cinema Europeu; e aproveitei para tomar um café.


Estava (bem) concentrado no capítulo dedicado à Nouvelle Vague quando, inesperadamente, uma mulher de aproximadamente trinta anos pediu para sentar-se na mesma mesa. Era atraente, especialmente pelos cabelos encaracolados à Norah Jones, pela sua pele levemente bronzeada pelo sol e pelo sou corpo frágil, mas bem torneado... contudo, ainda não era tão bonita quanto Maria Luiza (por que cazzo eu sempre comparo qualquer mulher a ela, por mais linda que seja?). Para variar, não consegui "puxar" nenhum assunto e continuei a ler, mas ela dissera que gostava muito do Cinema feito no "Velho mundo"... após uns dez minutos, parecia que nos conhecíamos há anos; e conversávamos empolgadamente sobre os filmes do Almodóvar.


Numa dessas grandes surpresas que a vida nos reserva, ela também era professora de Literatura (em uma escola privada) e também iria àquele congresso em Curitiba... definitivamente seria uma companhia agradabilíssima naqueles dias. Antes que eu tenha mais um acesso de amnésia, o nome dela era Ana Maria.

sábado, 15 de agosto de 2009

REMINISCÊNCIAS DO SONO



Mais um dia... e, mais uma vez, o despertador toca (talvez essa seja a única maneira de ficar irritado ao ouvir “Sexual healing”, de Marvin Gaye – o toque do meu despertador). Tento pensar em ficar mais cinco minutos deitado (se é que consigo raciocinar corretamente nos primeiros instantes após ter acordado)... mas temo que esses “cinco minutos” transformem-se em quinze, vinte, uma hora talvez. Barba (?) feita, banho tomado e vitamina ingerida, lá vou eu para o ponto de ônibus... antes disso, pego o jornal, entregue por algum pobre coitado que acorda antes de mim, enquanto eu ainda tentava dormir (por que alguns “param” suas vidas em prol de outras pessoas? Talvez nunca conseguirei entender isso).


No ponto de ônibus, como sempre, fico sabendo que o ônibus que eu pretendia tomar havia passado, no máximo, uns dois minutos antes... e sempre me resta esperar por volta de dez minutos, para variar (são raríssimas as vezes em que não me atraso... até para me atrasar estou atrasado). Nem preciso dizer que a combinação “rush e atraso” resulta em ônibus lotado. Espero não encontrar nenhum amigo ou qualquer pessoa conhecida (o meu nível de “antissociabilidade” está em patamar assustadoramente grande nos primeiros instantes do dia); logo, tudo o que quero é ler, ouvir o set list do meu mp3, ou dormir, caso algum lugar ficar vago no decorrer da viagem (o que é raro, diga-se de passagem). Às vezes penso nos (supostos) benefícios em ir trabalhar de carro, mas o engarrafamento (uma tradição nacional) e a minha (notória) falta de habilidade ao volante me fazem desistir.


Fim do (meio do) caminho... hora de virar “tatu” (estranho, agora me lembrei de Levy Fidélix, aquele tiozinho do “Aerotrem”, ao falar sobre o metrô). Em virtude de estar na primeira estação da linha (ou por sorte mesmo), os vagões não estão lotados; logo, há conforto (?) o bastante para poder ler o jornal (de cada dia, obviamente). Após chegar à estação Tiradentes (onde sou “espirrado” (!) do vagão), entro em questionamento hamletiano (ao invés do “Ser ou não ser? Eis a questão”, apelo para o “A pé ou de ônibus?”). Como estou (bem) atrasado, tenho de apelar para o coletivo... e lá vem mais tempo de espera até sua chegada. Dentro do ônibus, me sinto como se estivesse passando pela “cidade anônima” do livro (e filme) “Ensaio sobre a cegueira”, por causa de toda aquela sujeira característica do Centro Antigo (e decadente) de Sampa (não foi à toa que parte dessa película foi filmada por lá).


De repente, olho para o reflexo formado no vidro do ônibus, e percebo como as minhas olheiras estão grandes (olheiras são nada mais do que um dos sintomas de cansaço e, principalmente de sono)... nem os óculos ajudam a disfarçá-las. De acordo com o dicionário (“meu pai”), o sono é a “vontade ou precisão de dormir” (por que não mudam para “desespero por não dormir”?). De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o período minimamente recomendável para o sono é de 6 (isso mesmo, SEIS) horas... e muitas vezes, em virtude do ritmo de vida atribulado nos grandes centros urbanos, isso chega a ser um sonho (!) inalcançável. Não obstante, a falta de sono pode causar vários problemas à saúde, como irritabilidade maior, dores de cabeça mais frequentes e ganho de peso.


Não precisa ser nenhum gênio da raça para perceber que o dia será longo... qualquer lugar (uma cadeira, uma parede qualquer e, até mesmo, o hall do elevador) serão potenciais camas; e terei de tomar cuidado para não entrar em overdose de cafeína.

domingo, 9 de agosto de 2009

AS INTERMITÊNCIAS DA VIDA


Era uma sexta-feira. Mesmo tendo acordado ao som de Marvin Gaye (o toque do meu despertador é "Sexaul healing"... e não me venha com comentários maledicentes) e tendo vontade de jogar o celular na parede, além de ter aquela clássica dificuldade para acordar cedo (uma instituição nacional, não é mesmo?), eu sabia que aquele dia seria atípico... por causa de um hemograma. O meu mau-humor ia às alturas por imaginar aquela agulha (que faz marmanjo barbado e parrudo correr, aos prantos, para o colo da mãe) atravessar o meu braço tão grosso quanto um graveto.


Exame feito, biscoito (de leite, um clássico dos laboratórios desse ramo) comido e mocaccino tomado, lá fui eu para o ponto de ônibus... com band-aid no braço e tudo. Por sorte - talvez por tê-lo tomado mais próximo do início do itinerário -, ele estava vazio... e como foi bom cochilar até a estação do metrô (acho que atingi o nirvana - não a banda, cazzo - no meio do caminho).


Eu irei poupá-los dos pormenores sórditos (a quem iria interessar se eu costumo ler jornal no metrô e se a minha mesa estava com alguns documentos com análises pendentes - em virtude de problemas sistêmicos, é bom que se diga -, além de ter esperado por uns cinquenta minutos no elevador?)... Ao pegar o meu celular, vi que havia uma ligação não-atendida (de praxe... só não imaginaria que essa iria mudar o meu dia). Convenhamos, uma ligação de sua própria casa, registrada às 10h40, não é uma das coisas mais comuns no mundo.


Obviamente, como se espera de alguém que é um ser previsível, retornei a ligação. Eis que surge a voz despretensiosa do meu irmão (a minha versão "legal") no outro lado da linha; e, após ter perguntado pela "velha guarda" do clã (igual a pais), o garoto manda a seguinte: "Eles foram ao hospital... Fulano de tal morreu". Fiquei por uns dois segundos estático, com cara de quem vê a ex-namorada com outra pessoa; ou talvez um atropelamento... Tanto que uma amiga minha, que estava relativamente próxima de mim naquele momento, me perguntou se eu estava bem. "Sim, estou". Em virtude da insistência dela (segundo a própria, a minha cara não era das melhores... e olha que, mesmo quando estou bem, a minha cara não ajuda). "Um amigo da família faleceu. Não estou com vontade de sentar no canto da sala e chorar, mas estou meio 'atordoado', reconheço".


O resto do expediente foi estranho... nem modorrento, nem entusiasmente, tampouco estressante... Insosso, talvez. Espero não ter passado apatia a todos os seres que atendi à tarde (além de inexperiência... funcionário novato equivale a dores de cabeça aos chefes. Espero dar analgésicos a eles logo). Como se não bastasse, a van destinada aos colaboradores demorou muito para chegar ao prédio (ninguém "nunKassab" o porquê... será que é por causa da "lei-placebo" dos ônibus fretados?), o metrô estava "bombando" (para variar); e a avenida próxima à minha casa, inacreditavelmente, estava engarrafada ao ponto de uma formiga ficar parada por lá também.


Como diria o poeta (tão sábio quanto um participante de BBB), "Está na Argentina? Grite "É penta!"... decidi dar uma olhada nos 100 e-mails não-lidos (por negligência, preguiça, "vagabundagem") na minha "caixa"... E, depois, iria ao velório.


No meio do caminho (o meu pai estava dirigindo... por isso que hoje não estou falando sobre acidentes de trânsito), estava pensando sobre esse tema (infelizmente, a única certeza que temos na vida...). Pensava nos parentes do falecido (talvez eles estivessem desejando que o tema do livro "As intermitências da morte", de Saramago... um daqueles livros da série "1001 livros para ler antes de morrer" e que, diga-se de passagem, ainda não li. "Por que será que a "Morte" não tirou férias hoje?").


Ao vê-los ali, senti-me (obviamente) desolado, ao ponto de achar que iria chorar também... o momento mais delicado foi ver o filho ao lado do caixão, numa espécie de "diálogo retórico", um momento essencialmente introspectivo. Contudo, a alguns metros dali, havia uma roda composta somente por "barbados", tal qual o "Clube do Bolinha", na qual, para variar, só falava-se sobre futebol e automobilismo (não chegava a ser uma "amolação"... trocadilho infame, reconheço). Em outros momentos os temas foram (paradoxalmente) a vida, ufologia, o cazzo.


O clima e as circunstâncias, por si sós, eram desgastantes; sem contar o cansaço em virtude do horário. Início de madrugada, pedi para sair (simbolicamente falando). Não aguentava mais: as circunstâncias; o horário, talvez (ser "baladeiro" acidental e esporádico dá nisso). Não irei falar sobre os fatos posteriores (não estou aguentando mais abordar esse tema). O que resta, a todos nós, meros mortais, é viver cada momento intensamente (é um clichê, reconheço, mas não custa nada apelar para a teoria do carpe diem). Até a próxima, com assuntos obviamente menos fúnebres.

sábado, 1 de agosto de 2009

A MOLA DE BUDAPESTE

FONTE: Olé! (Espanha)

Começo da tarde ensolarada em Budapeste, capital húngara eternizada por Chico Buarque em seu livro homônimo. Para ser mais preciso, estava acontecendo o qualifying (treino qualificatório) para a décima etapa do Mundial de Fórmula 1. De repente, uma câmera capta a imagem de um carro vermelho "misturado" à barreira protetora de pneus; e, simultaneamente, pode-se ver um ponto mezzo azul, mezzo amarelo, no meio daquilo. Era a Ferrari do brasileiro Felipe Massa, após passar reto pela quarta curva do circuito de Hungaroring.

As imagens da câmera on board no carro do brasileiro mostravam evidências de um suposto erro (crasso), digno de quem só conseguiu a CNH após pagar a taxa (?) facilitadora... mesmo assim, as primeiras nuvens de preocupação começavam a chegar a Hungaroring, de carona com as ambulâncias designadas para o resgate de Massa.

Minutos depois, após as imagens do acidente terem sido exibidas à exaustão, pôde-se ver um "OVNI" indo em direção ao capacete do brasileiro (tratava-se de uma mola solta da Brawn GP do mal-fadado Rubens Barrichello). Foi inevitável não lembrar-se de Helmut Marko, que ficou cego após uma pedra ter atravessado a viseira de seu capacete; tampouco de Cristiano da Matta, que sobreviveu a um acidente ainda mais grave - um cervo atingiu em cheio o seu casco... Também foi impossível evitar as lembranças daquela manhã fatídica de 1º de maio de 1994 não viessem à memória de todos, especialmente dos brasileiros - será possível que essa mola seria representante daquele braço de suspensão que roubara a vida de Senna?

A estreia do espanhol Jaime Alguersuari, piloto mais jovem a pilotar um Fórmula 1, a troca de farpas pública entre Nelsinho Piquet e seu patrão, Flavio Briatore, a confusão na cronometragem e a pole de Fernando Alonso ficaram em segundo plano... Todas as atenções estavam voltadas para o helicóptero com destino ao Hospital Militar de Budapeste.

O circo da Fórmula 1 não vivi tal tensão desde os acidentes de Robert Kubica e de Heikki Kovalainen (2007 e 2008, respectivamente). O clima estava tenso ao ponto de Luca Colajanni, chefe de imprensa da equipe de Maranello, saiu na porrada com repórter que perguntara se Massa corria risco de morte - a cirurgia realizada no local onde ele foi atingido terminou bem sucedida. Barrichello, envolvido pelo destino no acidente, divulgara em sua página no Twitter que, instantes após o acidente, o piloto brasileiro estava consciente e gesticulando; e Dudu, irmão do "cara da Ferrari número 3", declarou que podia ouvir Felipe gritando aos médicos para que não o tocassem, que deixassem-o em paz e que ele estava bem. O fato era que a Ferrari só alinharia o carro de Kimi Räikkönen no domingo - segundo Mark Webber, piloto da Red Bull e vice-líder do campeonato, em vídeo gravado com mensagens de incentivo dos pilotos a Massa, que "uma única Ferrari no grid não faria sentido".

No domingo, ainda sedado - igual a Massa -, o mundo da Fórmula 1 viu o pit do carro número 3 vazio (somente os mecânicos com uma placa com a frase "Forza Felipe! Siamo con te" ("Força Felipe! Estamos contigo", em português)), a volta de Lewis Hamilton ao topo do pódio, a Brawn GP (leia-se Jenson Button) ver a liderança do campeonato ameaçada por Sebastian Vettel e por Webber, além da "suspensão"" por uma corrida imposta à Renault, por causa de uma roda solta no carro de Fernando Alonso.

Niki Lauda, ex-piloto tri-campeão (e que também sobreviveu a um grave acidente a bordo de uma Ferrari) , declarou que um tal de Michael Schumacher deveria substituir o lesionado Massa... mas ninguém imaginava que a aparente declaração abobalhada, digna de um jogador de Futebol, se tornaria realidade - a princípio, por uma corrida. Além disso, após muito blá-blá-blá, os médicos chegaram à conclusão de que Felipe não terá sequelas (físicas, ao menos)... pode ser que os brasileiros voltarão a vê-lo em ação já em 30 de agosto, no GP da Bélgica.

O que o destino irá reservar? Massa não será o mesmo piloto de outrora? Será que sua (até aqui) brilhante carreira será interrompida? Ou o veremos uma figura com um band-aid sobre os supercílio esquerdo no lugar mais alto do pódio na terra de Chico Buarque, Senna e de Calheiros? Só os deuses da velocidade poderão responder a essas perguntas.

sábado, 18 de julho de 2009

ENSAIO SOBRE A MIOPIA


Final de tarde ensolarada, porém começando a ficar fria (estamos no inverno, lembre-se)... Clima propício para reunir os amigos num pub qualquer, num boliche, quiçá para ir ao cinema... Entretanto, ao melhor estilo Joseph Klimber ("A vida é uma caixinha de surpresas", não é mesmo?), estava indo ao oftalmologista (convenhamos, que palavrinha complicada somente para dar nome ao especialista em "zoios").

Na recepção do consultório, para variar, a espera foi longa (não tão longa assim; mas, ao basear-me em uma das teorias do "tio" Einsten, levou uma eternidade...)... já poderia sentir a sensação um tanto desagradável do colírio dilatador nos meus olhos por antecipação; mesmo assim, eu estava aproveitando para ler (a tendência era de que eu passaria o resto do dia (ou melhor, noite) míope, tendo de pedir ajuda para, simplesmente, andar em linha reta).

Depois de aproximadamente vinte minutos (que pareceram ter durado uns quarenta), finalmente fui chamado para ir ao consultório. Era um local agradável até (pelo menos não lembrava um consultório odontológico)... Ao invés daquele motorzinho "chato" do dentista, o (pseudo) carrasco era o colírio dilatador mesmo - por um instante achei que fosse o "colírio alucinógeno" de José Simão, colunista da Folha de S.Paulo.

Pouco tempo depois (acho que suficiente para ter iniciado o processo de miopia condicionada), fui enviado novamente para a sala da espera (ou tortura?). Como se não bastasse a demora incessante, continuaram as aplicações do "colírio que faz ver duendes e elefantes rosados"; e eu me sentia como se estivesse sendo submetido ao Método Ludovico, tal qual o personagem Alexander de Large em "Laranja Mecânica"... não obstante, pelo fato de ter de olhar para o teto (branco), após terem colocado o colírio (?) em meus olhos, tive a sensação de ter sido vitimado pela "cegueira branca", tal qual os personagens de "Ensaio sobre a cegueira" (livro de Jósé Saramago, adaptado para o cinema por Fernando Meirelles). Por sorte, me lembrei de abaixar a cabeça, e pude ver tudo (embaçado); e, como se não bastasse, a secretária ainda me pediu para eu assinar a via de autorização do convênio (eu somente via mata-borrões; e aposto que a minha letra (ou melhor, hieróglifo) deve ter ficado semelhante a caracteres árabes).

Por algum milagre, no final das contas, o meu grau de astigmatismo estava praticamente estável (ironicamente, estava conformado com a "nova" condição de míope)... e nem sei como consegui chegar em casa. Acho que segui o barulho mesmo.

terça-feira, 30 de junho de 2009

EST MORT!


Na última quinta-feira, 25, o mundo da música (pop) perdeu um de seus maiores expoentes, se não o maior: Michael Jackson. Para poupar-lhe de toda a repercussão que o óbito (digno de rei (...)) teve, não irei apelar para o “mais do mesmo”, ao contrário do que ocorreu em toda a (grande) mídia... e, além de alguns fatos inusitados que ocorreram mundo afora, tentarei escrever sobre o “moonwalk” midiático.

Claro que seria imaginável o impacto da morte do astro pop ao redor do mundo, mas alguns fatos são dignos de serem (exaustivamente) comentados, isso é que não falam por si: presidiários tailandeses (isso mesmo, meu caro, presidiários tailandeses) tentaram realizar a dança eternizada no videoclipe de “Thriller”; Hugo Chávez, presidente venezuelano, disse estar triste pelo final (melancólico) do astro, mas reclamou da ampla cobertura do caso no canal de notícias CNN (segundo o próprio, “isso é o Capitalismo”); Mário Moraes, piloto brasileiro na Fórmula Indy, participou da última etapa (se não me engano, em Richmond) com luvas prateadas... e Barrica prometeu que, se subir ao pódio na próxima etapa do mundial de F1, fará o “Moonwalk” no lugar da já patenteada “sambadinha” (será engraçado).

Agora, queria ponderar sobre alguns pontos, digamos, chatos: antes de sua morte, Michael Jackson era considerado pela opinião pública (que é bem diferente de opinião, de fato, da sociedade) como pedófilo, mesmo inocentado pela justiça norte-americana; em virtude de seus gostos excêntricos (que custaram parte considerável de seu patrimônio astronômico), era tido como “louco”, senseless e afins... e, hoje, é tão-somente uma criança crescida, tentando reaver sua infância cerceada. Não obstante, pouco fala-se sobre os direitos comerciais que detinha sobre as músicas dos Beatles, obtidos de maneira, digamos, escusa (até hoje Paul McCartney sente as dores causadas por essa rasteira dada durante alguns passos do “Rei do Pop”). Será somente volatilidade de pontos-de-vista ou formação de juízo (de valor) condicionada à opinião pública? Tirem suas conclusões.

Como diria a poetisa, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”... e, seguramente, Michael Jackson as sabia, como poucos. Tanto que chegou a confidenciar a Lisa Marie Presley (ex-esposa do cara e filha do “homem”) que temia morrer da mesma maneira que Elvis (vitimado por um ataque cardíaco). Apesar de seu desejo (ou medo, de acordo com o seu ponto de vista), não houve muita diferença entre ambos os óbitos. Com certeza o mundo ainda verá intensas (e sangrentas) batalhas judiciais pela guarda dos filhos (?) e pelas migalhas que ainda restam (inclusive em Neverland)... triste epílogo para quem teve alguns dos capítulos mais alegres do século XX, intercalados numa história tão inverossímil quanto as contadas por Machado de Assis.

Tentemos não nos ater aos seus erros e deslizes, tampouco aos seus problemas e ao seu complexo de Peter Pan... nos recordemos de Michael Jackson tal qual ele foi (e será), musicalmente falando.

FÉÉÉRIIIAAASSSS!!!!


Passamos o ano inteiro esperando por datas como o Natal, Réveillon, aniversário... e, claro, pelas férias também. Na infância (e, em pouco mais da metade dos casos, na adolescência), essa fase vem em dose dupla (no verão, quando, normalmente, passamos alguns dias na praia, no sítio, na casa dos tios do norte do Paraná... e no inverno, época em que, substancialmente, ficamos debaixo das cobertas para assistir, pela décima oitava vez, “Karate Kid” na “Sessão da Tarde”); contudo, ao atingirmos a fase adulta (?) de nossas vidas, essa “boiada” torna-se rarefeita... só a temos uma vez ao ano... e isso quando a temos. Daí a mitificação desse mês de “retiro” moral por parte de todo e qualquer ser humano membro do proletariado – de uns meses para cá, os estagiários foram (merecidamente) inclusos no pacote.

Quando percebemos que necessitamos de uma pausa e que estamos aptos a balbuciar “Preciso de férias”? A manifestação de tal necessidade pode ocorrer de diversas maneiras, de acordo com o estágio do “estressômetro” do elemento... ao ser extremamente rude com a pessoa mais legal do mundo, por motivos, digamos, “bobos”; ao chorar em bicas por causa de uma conversa um pouco mais acintosa; ao visualizar uma parede (ou o hall do elevador) tal qual sua cama... Enfim, o corpo, a mente (e a alma, por que não?) gritam “Help me, m*therf*ck*r!” quando atingem o limite tolerável, no que diz respeito a situações desgastantes.

Durante as férias, todos temos o costume de fazer planos, inclusive os (absurdamente) irrealizáveis, como ir até o STF (Plenário e Câmaras dos deputados e senadores também podem perfeitamente entrar no pacote) e atirar ovos podres em seu presidente, quiçá em algum senador que tenha colocado a família inteira em seu gabinete por meio de “atos secretos”; quiçá ir à Disney e quebrar um skate na cabeça do funcionário vestido de Mickey (se bem que no Pateta ou no Tio Patinhas seria um pouco mais engraçado).

Contudo, via de regra, costumamos fazer tudo o que não podemos fazer em nosso (insano) cotidiano... ouvir aquele CD “jogado” no canto do quarto da sua “banda de cabeceira”, ler aquele (s) livro (s) que está (ão) em sua lista de “1001 livros para ler antes de morrer”, assistir aos DVDs empilhados aleatoriamente (desde ao do filme “arrasa-quarteirão” do semestre passado ao último dirigido pelo Gus Van Sant), visitar (ou pentelhar) os amigos de “outrora”, dos (as) quais você teve de se afastar por causa de seu cotidiano (infelizmente ou felizmente, cada um “toma um rumo” na vida), ir a algum pier (ou jardim suspenso), num final de tarde, para escrever ou para ficar ao lado de alguém... além daquela viagem (o rumo pode variar da Costa do Sauípe até a Praia Grande) que você vinha planejando desde o fim das últimas férias.

Enfim, aproveite cada instante de suas férias como se fosse o último segundo na Terra. Carpe Diem!