domingo, 23 de agosto de 2009

NUNCA MAIS? (PARTE I)


Era um dia nublado, tão insosso quanto um prato preparado para um hipertenso (em tratamento). A garota do tempo, numa dessas ironias da vida, havia informado que aquele seria um dia ensolarado; e o mesmo fora informado na TV do metrô e no jornal. Talvez seja mais fácil acreditar em duendes e na integridade moral de Sarneys e de caudilhos em geral. Ah!, e diga-se de passagem, aquele era um dia interessante para viajar de avião... e eu teria de fazê-lo, até Curitiba.


Na verdade, eu iria a um desses congressos regados a muitas palestras sonolentas e rodadas de uísque até o amanhecer (e isso tenderia a repetir-se por uma semana). O tema era ligado à Literatura (antes que eu esqueça de dizer, sou professor de Letras numa dessas universidades particulares por aí; e, nas horas vagas, tento desfazer-me das minhas frustrações escrevendo... nem preciso dizer o quão ridícula e insignificante é a minha obra(?)). Enfim, por algum motivo que nem um tal Sigmund Freud explicaria, fui convidado a participar dela.


No fim das contas, aceitei sem titubear, para tentar fugir um pouco dos problemas - e de mim mesmo, reconheço. Eu não passava por uma fase "das melhores", por assim dizer. O meu casamento de cinco anos havia acabado (ou melhor, fui eu quem optara pelo divórcio... Maria Luiza, minha ex-mulher, merecia alguém melhor, menos chato e menos propenso a ser um "loser"); o meu emprego na universidade estava por um fio (tudo por causa de uma veemente discussão com o reitor, um "carrasco nazi-fascista"); e, além disso, a minha relação com o meu pai não andava muito bem (por minha culpa... seguramente pelo meu jeito "fechado", por preferir chorar escondido do que a pedir ajuda... e, desde que havia dito ao "velho" que estava cansado de ser um problema (!) na vida dele, não nos falamos mais... e isso faz uns três meses).


A caminho do aeroporto, no táxi, sem motivo aparente, tive uma sensação estranha... era como se aquela fosse a última vez em que eu faria aquilo. Será que nunca mais veria os prédios da Avenida Paulista? Eu não teria mais oportunidade de ver o sorriso da Maria Luiza, o mais lindo que eu vi até hoje? (é difícil admitir, mas eu ainda a amava... e, por amá-la, decidi afastar-me dela... e me sentia igual ao personagem de Matt Damon em "Gênio indomável". A exemplo do que você está pensando agora, sei que sou um cara complicado; enigmático, como uma grande amiga minha diria). Nunca mais iria ao Pacaembu, para assistir ao jogo do Corinthians? Eu não iria mais ir a uma livraria, para ler por horas e horas; ou ir ao bar com os amigos? Por alguns segundos, eu me senti aterrorizado por causa daquela sensação; tanto que o taxista me perguntou se estava tudo bem. "Tudo bem, 'velho'... só uma certa nostalgia por antecipação". Ele havia dito que muitos dos passageiros dele sentiam algo semelhante. "Não foi nada demais"; e me calei instantaneamente. Nunca fui muito bom em conduzir diálogos...


Fim da corrida até o aeroporto (sem trânsito intenso, ainda bem); e ela ficou por volta de R$30,00... se não fosse pelas malas, eu teria pego ônibus e metrô sem problema algum. O voo estava previsto para as 16h30 e, por um milagre, estava aproximadamente 1 hora e quinze minutos adiantado (eu nasci com um ligeiro (?) problema crônico no meu relógio biológico; logo, nunca fui muito bom no quesito "pontualidade"). Aproveitei para despachar as malas para que fossem direcionadas ao compartimento do avião; e fui à Duty Free, para comprar um livro para passar o tempo da viagem (eu havia esquecido o "Admirável mundo novo" em casa; e pretendia lê-lo pela terceira vez... queria certificar-me que as comparações que faziam comigo e com Bernard Marx, personagem desta obra de Huxley, eram fundadas). Acabei adquirindo um livro sobre Cinema Europeu; e aproveitei para tomar um café.


Estava (bem) concentrado no capítulo dedicado à Nouvelle Vague quando, inesperadamente, uma mulher de aproximadamente trinta anos pediu para sentar-se na mesma mesa. Era atraente, especialmente pelos cabelos encaracolados à Norah Jones, pela sua pele levemente bronzeada pelo sol e pelo sou corpo frágil, mas bem torneado... contudo, ainda não era tão bonita quanto Maria Luiza (por que cazzo eu sempre comparo qualquer mulher a ela, por mais linda que seja?). Para variar, não consegui "puxar" nenhum assunto e continuei a ler, mas ela dissera que gostava muito do Cinema feito no "Velho mundo"... após uns dez minutos, parecia que nos conhecíamos há anos; e conversávamos empolgadamente sobre os filmes do Almodóvar.


Numa dessas grandes surpresas que a vida nos reserva, ela também era professora de Literatura (em uma escola privada) e também iria àquele congresso em Curitiba... definitivamente seria uma companhia agradabilíssima naqueles dias. Antes que eu tenha mais um acesso de amnésia, o nome dela era Ana Maria.

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