segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

25 DE JANEIRO - UMA ODISSÉIA SOBRE TRILHOS (PARTE I)

Começo de tarde de domingo. Domingo de feriado, diga-se de passagem. Tento combinar com os meus amigos para fazer algo - algo meio cult, de preferência... ou o que aparecesse. Repentinamente, ao falar com uma amiga minha, sou "chamado" para ir ao show do Nando Reis. Nada demais, se não fosse o local: Interlagos. Para quem mora em Guarulhos e não tem carro (ou seja, pedestre full-time e 'tatu' confesso), é como tentar percorrer o trajeto da Muralha da China na íntegra. Mesmo assim, acho o som do cara muito bom... e isso pesou em minha decisão. Topei, apesar de ter titubeado por uns dois segundos. Detalhe: o concerto começaria às 16h.

Aparentemente, uma tarefa fácil até, levando-se em conta que encontraria meus amigos no local. Doce ilusão (agora me lembrei de uma música 'homônima' a esta expressão, da banda indie Banzé!)... mas, contudo, todavia (vou parar por aqui...), tudo saiu exatamente como eu não havia planejado... lhes pouparei dos fatos um tanto pitorescos que me levaram a "desplanejar" tudo... fato: 14h30 no ponto de ônibus, para pegar a primeira "sardinha" com rumo a qualquer metrô. Eu tinha praticamente uma hora e meia para "operar o 'milagre de Interlagos'"... nem precisaria ser alguém com o cérebro de Stephen Hawking ou de Glauber Rocha para deduzir que essa era uma tarefa impossível.

Encurtando um pouco a história: cheguei à Penha por volta das 15h20; e na Barra Funda, para tomar o trem às 15h55...

Durante o trajeto, algumas coisas me chamaram a atenção: o comércio (para refrescar a viagem, vai um refri ou uma cerva quente?... ou um amendoim?)... e, infelizmente, uma mulher "descendo a raquete" na sua filha, de dois anos... não sou pedagogo e nem tenho maturidade para ser pai, mas há limites... e isso tudo foi até Presidente Altino, onde eu teria de fazer a baldeação para tomar outro trem... até Interlagos (ufa!).

Depois de algum tempo de espera, lá estava no "trem espanhol". Seria a deixa perfeita para ler o jornal... como se não bastasse o fato de quase todas as notícias serem sobre Obama, crise econômica, anivarsário de São Paulo e o peso do Ronaldo, a trilha sonora estava "supimpa": havia uma galera ouvindo uma espécie de Calypso cover. Ainda tentei ler algumas crônicas de um escritor italiano sobre a construção de Brasília, mas não rolou (não pelo texto, que era ótimo, mas pela vibe do local). Decidi observar o horizonte: de um lado, a suntuosidade dos edifícios da região da Berrini; do outro, a Marginal Pinheiros.

Algumas estações adiante, a Marginal Pinheiros continuava sendo a companhia insólita e improvável de muitos passageiros daquele trem (inclusive a minha, confesso). Continuam as incongruências: os prédios de Pinheiros e o rio que deu nome à via marginal continual a formar um "ying yang" assimbiótico... além disso, o Shopping Cidade Jardim, a Meca do mundinho blasée "crasse A" - e os prédios anexos da high (?) society - em parceria improvável com casas de alvenaria de baixa renda, davam tapas na cara da galera que fechava os olhos a tantas disparidades sociais... e isso tudo em São Paulo, outrora a terra das oportunidades.

Adeus, Marginal Pinheiros. Antes disso, ao olhar para lá (cada um tem o Rio Negro que merece), comecei a ponderar que anos de "desenvolvimento" desenfreado levaram a tudo aquilo... nem a tal ponte estaiada tem moral para "limpar a barra" dali. Ao prosseguir viagem, tive a sensação de ter passado por um arco que me conduziu a outra realidade, completamente oposta à da Berrini, Vila Olímpia etc... mundo periférico, aí vou eu. Como destaque, cito um trecho do Autódromo de Interlagos, visível do trem... acho que era a Curva da Junção (por que não mudar seu nome para "Curva Timo Glock"?).

16h50. Fim da linha... e a história, apesar de ter saído dos trilhos, continuará daqui... aguardem.

3 comentários:

Wilton disse...

Estou impressionado...muito bom. É um escritor nato. Congratulations my boy!

See ya

ajeugenio disse...

Lucas, hermano, valeu mesmo!! Que bom que você tenha gostado o (pseudo)blog... fique à vontade para comentar (ou criticar, quando quiser) qualquer texto.
Abraços

Pry!!! disse...

Nossa Junior faço as minhas palavras as do seu amigo, muuito bom!!!Um humor sarcástico, intelectual(como vc é !)amei!!
acho que vou me torar uma leitora fiel !!
bjss